Todos nós tínhamos especulações a respeito do filme solo do arqui-inimigo do Batman e a maioria delas eram positivas, em parte pelo brilhantismo de Joaquim Phoenix no papel de Coringa, ou pelo legado deixado por Heath Ledger na trilogia Batman e o cavaleiro das trevas.

Ironicamente, o receio veio pelo mesmo motivo e comparar as duas performances é, no mínimo, injusto. Apesar de ter pontos muito importantes da atuação do Joaquim que gostaria de ressaltar, vou deixar essa pra Gloria Pires na cerimônia do Oscar, por que esse filme – com toda certeza – é digno dele.

Duas sensações me assombraram enquanto assistia ao filme, nos momentos mais calmos, a angustia e nos mais tensos e frenéticos, ansiedade, tenho quase certeza que essa foi a intensão do diretor (Todd Phillips) ao nos fazer imergir numa estória onde não se pode confiar no narrador, e por diversas vezes fomos enganados quanto à veracidade dos fatos.

Vale ressaltar que ter um narrador com sanidade mental questionável, deixa a trama tão real a ponto de você se questionar sobre a própria capacidade de reconsiderar seu ponto de vista dentro do enredo.

O juízo de valor que o filme traz, pouco importa, na minha nem tão humilde opinião, Todd nunca teve a intensão de nos fazer discordar ou concordar com Arthur Fleck/Coringa, apesar desse personagem nos oferecer boas criticas ao nosso modelo de sociedade capitalista (alô, tio Marx).

O próprio filme é a crítica, não apenas o discurso que nele contém, é a metalinguagem do autor ao te fazer esquecer seus próprios preceitos de ordem e justiça ao concordar com um maníaco suicida.

É uma honraria, uma mensagem, é visível como o narrador – sendo ele o personagem principal – nos manipula do início ao fim, e mesmo revelando não ser confiável, ainda nos deixamos levar pelo discurso inflamado. É botar o dedo na goela como diz Caio Fernando Abreu, concordo, mas nada é simplório, por acaso ou superficial nesse filme.

Então escolhi alguns símbolos que me causaram reações diversas. Dentre elas, a dança que o personagem faz sempre que fantasia uma grande estreia, ou quando sugere um pensamento suicida ou homicida (a linha é tênue nesse filme) e isso em nenhum momento perde significado ou é previsível, o caderno riscado simbolizando a mente do eu lírico, o ambiente sufocante e os raros momentos de alegria tornam tudo palatável e isso é digno de uma grande obra.

Por fim, o afeto pseudobulbar que é o transtorno desenvolvido pelo Arthur e que marca a atuação de Phoenix também diz respeito ao que chamamos de riso trágico, uma piada tão sádica quanto colocar um anão numa cena de assassinato brutal, fazendo todos da sala de cinema gargalharem, sem nem se importar com o corpo ensanguentado jogado no chão.

Tão sádico quanto a possibilidade das gargalhadas do personagem literalmente o matarem por insuficiência respiratória, AVC ou parada cardíaca – hilaridade fatal, mais uma do mórbido humor de Todd Phillips que prova mais uma vez que a linha que nos separa do Coringa é tão frágil quanto ter sua fraqueza exposta (seja em rede nacional ou não).

Você já pode ouvir nosso Podcast em que falamos sobre o Coringa ser perigosamente genial, escute com fone de ouvido para uma melhor experiência e mande um e-mail para social@curumimnerd.com.br falando o que achou.

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