Recentemente, ouvi a expressão “A arte sempre foi política” e passei os últimos dias tentando entender os motivos que levaram aquela pessoa a concluir isso, pois bem, aqui vai.

Há quem diga que arte é apenas arte e que não deveria se misturar com política (Gregório de Matos se contorce no túmulo), mas desde a época medieval e em todos os movimentos literários da modernidade algo está sendo criticado, seja ele qual for.

Acontece que para a maioria de nós – jovens – entender a política como algo inerente a vida social e consequentemente à arte, que é fruto das relações humanas dentro de uma sociedade, é uma ideia absurda.

Não darei exemplos claros como os quadrinhos do Capitão América e Homem de ferro no contexto da Guerra Fria ou do Vietnã, apesar de já terem um grande trunfo (mesmo afirmando o imperialismo norte-americano).

Existem em todos os atos humanos, expressões de verdade, ou seja, ninguém é – na prática – totalmente imparcial (entenda isso como uma expressão extremamente politizada). Os grandes estúdios como Marvel sempre souberam disso, pois não é a utopia que nos motiva, é a verosimilhança com a realidade.

Em 1963, para os menos informados, acirrava-se a Guerra Fria e se iniciava a Guerra do Vietnã. Além disso, foi o ano em que jovens encabeçaram junto com Martin Luther King o movimento de Direitos Humanos dos negros. Em um mundo bipolarizado, manter-se imparcial não era uma opção, a queridinha Marvel não tangenciou essa responsabilidade e fez jus ao que King sempre disse:

“A derradeira dimensão de um homem não é a posição que defende em momentos de comodidade e conforto, mas a posição que defende em tempos de desafio e controvérsia.”

– Martin Luther King

X-men foi o primeiro desenho que eu realmente assisti e seus quadrinhos tiveram lançamento no ano cabalístico* de 1963. De cara, o desenho não tinha nada de imparcial, ele retratava meticulosamente a ideia de uma minoria rejeitada, criminalizada e marginalizada pela maioria estado unidense por apresentarem traços genéticos que marcavam sua identidade (entenda, estou falando de pretos, latinos e gays).

Apesar dos quadrinhos terem sido criados por caras brancos, héteros, ricos em posição de poder e influência (perdoe-me, Movimento Popular Negro), eles mostraram para a maioria dos jovens brancos, héteros, ricos e minimamente politizados da época que a segregação é o verdadeiro inimigo.

Antes de me atacarem, vou me adiantar e dizer que Stan Lee e Jack Kirby não entendiam absolutamente nada sobre a luta negra (ou qualquer outra luta contra opressão das minorias). Em diversos episódios, o claro desentendimento quanto a posição dos personagens é evidente e é até difícil de engolir (supremacia mutante, igualdade formal e etc.)

Jack Kirby e Stan Lee

O motivo desse texto é mostrar que os maiores fenômenos da arte, citei os quadrinhos como forma de chegar até meus amigos nerds, sempre foram feitos sobre alicerces políticos.

Contudo, não serei generalizador e dizer que TODAS as expressões de arte são politizadas, na verdade, com a falsa consciência de liberdade trazida pela evolução do capitalismo, quase nada é verdadeiramente feito com a intensão de criticar algo e quando isso acontece (raras vezes) a obra se torna subversiva demais ou interessante de menos.

Perry Anderson, historiador britânico enxerga a Politização como um fenômeno que acontece quando as condições sociais históricas a propiciam. Em tempos de comodismo e ativismo de cadeira, seria interessante (mas você não é obrigado) analisarmos mais profundamente a nossa realidade e entender que

“A Política é o sistema de relações de poder dentro de uma sociedade”

Perry Anderson

Seja em Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage ou X-men, nada ali é feito apenas para divertir, entreter ou deslumbrar, tudo tem cunho político (ou anti-político, que também é uma posição política), crítico e expositor das mazelas sociais que nos afligem.

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